Obrigado por estar aqui , você faz parte deste número

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Extinção de sacolas plásticas gera conflito

Economia/ Meio Ambiente

Por Felipe Gibson

A discussão em torno do fim das sacolas plásticas convencionais nos supermercados do Rio Grande do Norte continua emperrada. Em maio do ano passado, a Associação dos Supermercados do RN (Assurn) se engajou na questão e dois projetos de lei chegaram a ser apresentados na Câmara Municipal de Natal e Assembleia Legislativa, porém o movimento parou por aí. Os danos causados ao meio ambiente pelo uso indiscriminado do material é o principal argumento da Assurn, entretanto o assunto envolve outros personagens no enredo, como a indústria do plástico e o próprio consumidor.
Geraldo Paiva pede parceria conjunta entre governo e empresários. foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press Para a Assurn, a substituição das sacolas plásticas pelas chamadas biodegradáveis só é possível com a extinção das convencionais oferecidas gratuitamente nos supermercados. "Na maioria das cidades só funciona bem quando é regulamentado por lei. A medida não funciona sozinha, pois enquanto uns eliminam as sacolas, outros se aproveitam e continuam", explica Geraldo Paiva, presidente da associação, o que segundo ele causa desequilíbrio no mercado e o objetivo central, a defesa do meio ambiente, acaba perdendo a finalidade.

Por outro lado, a indústria do plástico teme a aprovação de uma lei do gênero, que colocaria em risco a existência das fábricas e consequentemente os empregos de milhares de pessoas. O superintendente do Instituto Nacional do Plástico (INP), Paulo Dacolina, acusa os supermercados de estarem maquiando os interesses econômicos com a questão ambiental. "Não existe nada que comprove cientificamente os prejuízos da sacolinha", afirma o representante do INP, que se baseia em uma pesquisa realizada pelo órgão ambiental Environment Agency, da Inglaterra. Segundo o estudo, a sacola convencional seria menos impactante que os demais modelos indicados pelos supermercados.

Geraldo Paiva, da Assurn, conta que são quatro os tipos de sacolas. A convencional; a oxidegradável, similar a anterior com uma decomposição mais rápida; a biodegradável, apontada como a mais viável do ponto de vista da reutilização; e aretornável, feita de algodão, também resistente à reutilização e mais cara das opções.

A pesquisa da Enviroment Agency mostra que sacolas feitas para serem reutilizadas mais de uma vez, como é o caso das biodegradáveis e retornáveis, costumam ter maiores impactos na fabricação. Para calcular a compensação ambiental dessas opções, a agência aponta que tudo depende do volume de reutilização. "Para qualquer sacola, incluindo as sacolas leves [convencionais], os impactos de fabricação podem ser reduzidos usando-se uma sacola várias vezes - por exemplo, se uma sacola é usada três vezes, os impactos serão um terço do impacto de outra similar utilizada uma única vez", diz o documento.

No RN, projetos na Câmara Municipal, do vereador Assis Oliveira, e na Assembleia Legislativa, do deputado Fábio Dantas, estão parados. Nos dois casos existe a pendência de promover uma audiência pública para debater o tema antes de tudo. "Esperamos colocá-lo em pauta na volta aos trabalhos em 2012", prevê Fábio Dantas.

Educação ambiental é a base de tudo

Fora a parte a discussão mais técnica sobre o tipo de sacola mais ou menos poluente, o fator educação é a questão fundamental da história. No entendimento de Paulo Dacolina, do INP, antes de extinguir o plástico dos supermercados, é preciso buscar uma alternativa educacional. De acordo com ele a mudança de atitude começa pelos próprios atendentes de caixas dos estabelecimentos, e dependem também da mudança de hábitos já enraizados pelos consumidores.

Para Geraldo Paiva, o fato da sacola ser gratuita é o que leva ao uso indiscriminado. Não é nenhum absurdo ver caixas e consumidores usando três sacos plásticos para levar determinadas mercadorias, ou colocando pequenas quantidades de produtos separados em várias unidades. "O uso irresponsável é que traz o impacto negativo", afirma Paulo Dacolina. O superintendente conta que a saída educativa já é trabalhada por meio do Programa de Qualidade e Consumo Responsável de Sacolas Plásticas encabeçado pelo INP, Instituto Socioambiental dos Plásticos (Plastivida), e Associação Brasileira das Indústrias de Embalagens Flexíveis (ABIEF), porém é preciso ampliar essa atuação.

A fundadora da empresa Inplast, Vilma Estefan, enfatiza que paralelamente à educação do consumidor, é necessária uma coleta seletiva eficiente para minimizar o uso irresponsável da sacola plástica, já que a maior parte do material é reaproveitado como saco de lixo, enterrado principalmente em aterros. "A sacolinha não é esse bicho papão. A educação é que vai para o caminho errado. Poderia haver uma campanha mais forte sobre isso, assim como vemos outras por aí", avalia.

Paulo Dacolina acrescenta que o malefício da sacola como lixo não é nem de longe comparado ao que vem embutido na embalagem. Segundo ele, as sacolinhas correspondem a apenas 0,2% do que é jogado nos aterros. "Você tem que adaptar o produto ao meio ambiente e não matá-lo", conclui o superintendente do INP.

Preço preocupa e pode recair no consumidor

Para os supermercados, custa R$ 0,2 a sacola convencional, oferecida gratuitamente, mas com o valor embutido nas mercadorias. O presidente da Assurn conta que o valor representa menos de 1% do faturamento dos supermercados, o que desqualificaria o argumento de interesse econômico. Entretanto, essa é a explicação encontrada pela indústria do plástico para a substituição, com base no fato de que as sacolas biodegradáveis e retornáveis serão vendidas.

O superintendente do INP calcula que os supermercados economizariam R$ 500 milhões parando de oferecer a sacolinha gratuitamente, e ao mesmo tempo lucrariam R$ 1,5 milhão revendendo o material em todo o Brasil. Por ser mais cara, custando entre R$ 0,20 e R$ 0,25, a sacola biodegradável teria um impacto de 7% ou 8% caso fosse embutida nas mercadorias, informa Geraldo Paiva. Já a retornável é uma opção que valerá R$ 2 pela unidade.

A intenção apresentada pela Assurn é fazer com que o consumidor reutilize o material para as compras nos supermercados. A defesa da associação é que a venda promoveria a mudança de hábito da população. A oxidegradável é hoje utilizada, por exemplo, pelo Nordestão. Na opinião dos empresários do plástico, essa opção é descartável caso o objetivo seja preservar o meio ambiente. Pela vida útil curta, a oxidegradável não pode ser reciclada, o que é viável no caso da sacola plástica.

Cláudio Venâncio, diretor da Plastverde, que produz cerca de 120 toneladas de plástico por mês em João Câmara, não exclui a possibilidade de demitir funcionários, hoje com 96 empregados. No caso da produção ser voltada totalmente para o tipo oxi, o empresário teme uma alta no preço. "Vai se tornar mais cara, pois não é reciclável", conclui.

Diário de Natal

Nenhum comentário: