Por Marco Antonio Araujo
Se alguém não entendeu o olhar tenso e a cara de pânico de Patrícia
Poeta na abertura do Jornal Nacional da histórica segunda (17), alguns
fatos ajudam a explicar — além dos expressivos 50 mil manifestantes que,
naquele momento, estavam nos arredores do prédio da emissora, em São
Paulo.
Àquela altura, os diretores de jornalismo da Rede Globo já sabiam de
vários atos de hostilidade que seus repórteres haviam sofrido desde o
início da passeata. Tanto que os funcionários foram orientados a, por
prudência, esconder o logotipo da empresa e evitar provocações. Dias antes, o principal colunista político do jornalismo da Globo,
Arnaldo Jabor, vociferara contra os manifestantes, ridicularizando o
clamor dos 20 centavos. Dá uma olhada no vídeo:
Arnaldo Jabor fala sobre protestos contra aumento nas tarifas de ônibus por jajacolino12 no Videolog.tv.
No dia da manifestação, muito provavelmente atendendo pedido da
emissora, que viu que não pegou nada bem o comentário de Jabor, ele
soltou um “Amigos, eu errei”, tentando se desculpar pela falta de noção.
À esta altura, até um dos profissionais mais combativos e respeitados de
nosso jornalismo, Caco Barcellos, havia sido expulso aos gritos do
largo da Batata, no início das manifestações.
Entre as palavras de ordem publicáveis, uma resume o que esta por trás
do ódio que acompanha a líder de audiência em qualquer aglomeração
democrática: “A Globo é mentirosa!”. Será verdade?
Por mais que a Família Marinho negue, tem sido essa a principal marca
que a identifica: a Globo manipula, esconde, aumenta, persegue inimigos e
protege aliados. “O povo não é bobo”, diz outro refrão do conhecimento
de todos.
Não se constrói um sólido patrimônio negativo desses de um dia para o
outro. Isso é uma obra de décadas. E teve início durante a ditadura
militar, que a emissora defendeu abertamente. Ninguém apoia assassinos e
déspotas impunemente.
Quando da democratização do Brasil, a emissora fez questão de se manter
alinhada com o que havia de mais atrasado e autoritário na política.
Mas não há momento mais significativo da mágoa popular contra a Globo
(junto com a indiscutível manipulação do debate entre Lula e Collor, em
1989) do que seu papel vergonhoso durante as “Diretas Já”. Vai ser
difícil sair do imaginário cívico a forma desavergonhada como a emissora
escondeu de seu noticiário os milhões de brasileiros que foram às ruas
(elas, sempre elas) reivindicar o direito ao voto para presidente.
Todos sabem que o poderio das Organizações foi construído e mantido ao
contrariar os interesses da maioria da Nação. Isso tem um preço. Mas não
tem sido caro o suficiente para ameaçar sua liderança. Ainda.
Como todos os palácios, esse também um dia vai ser invadido. Era nisso
que pensava Patrícia Poeta quando começou a ler as manchetes do Jornal
Nacional do dia 13 de junho de 2013. Seu olhar tenso e a cara de pânico
não a deixaram mentir desta vez.
2 comentários:
como foi dito...ainda não desta vez. Mas pode apostar..um dia cairá.
Tinha que ter o dedo de e de ir mais cedo.
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